Como situações reais em sala de aula estão mudando a formação em Engenharia
- A.E.A.O.R
- há 2 dias
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A Engenharia brasileira está diante de uma encruzilhada interessante. De um lado, o país se prepara para um novo ciclo de grandes obras em infraestrutura, transição energética, cidades inteligentes e adaptação climática. De outro, os cursos de Engenharia perdem alunos, as taxas de conclusão caem e muitos estudantes ainda não enxergam claramente o propósito da profissão nem onde, de fato, vão aplicar o que aprendem.

Nesse cenário, não basta falar em “formar mais engenheiros”. A pergunta muda: como formar profissionais que entendam problemas reais, consigam dialogar com diferentes atores e entreguem soluções para o Brasil que já está acontecendo, não só para o exemplo de livro?
É exatamente nessa direção que iniciativas como o FuturoLab, parceria entre o Crea SP e o Inteli, começam a ganhar peso.
Do dado preocupante à mudança de método
Nos últimos anos, as matrículas em cursos de Engenharia vêm caindo e a evasão é alta. Para cada 100 estudantes que entram, apenas uma parte chega ao final da graduação. Ao mesmo tempo, pesquisas com alunos do ensino médio mostram que poucos cogitam seguir carreira na área.
Esse movimento não fala apenas de números, mas de desconexão. Muitos jovens não se reconhecem em currículos excessivamente teóricos, distantes dos problemas concretos que veem na cidade, no campo, na indústria ou na própria casa.
A resposta, cada vez mais, passa por mexer no centro do modelo de ensino: a forma como o aluno aprende e se relaciona com os desafios da profissão.
FuturoLab: quando o desafio real entra na sala de aula
O FuturoLab nasce justamente dessa necessidade de aproximar formação, mercado e missão pública da Engenharia. Em parceria com o Inteli, o Crea SP levou para dentro da graduação um problema real, ligado diretamente à rotina do Conselho.
Logo no início do curso, os estudantes receberam um desafio concreto: trabalhar com um conjunto anonimizado de mais de 10 milhões de ARTs emitidas ao longo de dez anos e desenvolver um protótipo de modelo preditivo para apoiar a fiscalização, identificando padrões suspeitos e possíveis irregularidades.
Antes de qualquer linha de código, porém, veio o contexto. Os alunos precisaram entender:
o que é uma Anotação de Responsabilidade Técnica
como funciona o trabalho de fiscalização
quais riscos a sociedade corre quando uma obra ou serviço não tem profissional habilitado à frente
Ou seja, a tecnologia não entrou sozinha. Ela veio acoplada à compreensão do sistema profissional, de processos complexos e, principalmente, da responsabilidade técnica que sustenta a atuação de engenheiros, agrônomos e geocientistas.
PBL na prática: aprender resolvendo problema de verdade
O FuturoLab se apoia no modelo pedagógico do Inteli, baseado em Problem Based Learning (PBL). Em vez de acumular teoria para “um dia” aplicar, o estudante trabalha em ciclos trimestrais orientados por desafios reais.
No caso do projeto com o Crea SP, isso significou:
lidar com um volume massivo de dados
traduzir requisitos de fiscalização em critérios técnicos para o modelo
testar hipóteses, validar resultados e comunicar os achados para equipes que não necessariamente falam a mesma “língua” da programação
O aprendizado deixa de ser uma sequência de disciplinas isoladas e passa a ser uma experiência integrada, em que:
teoria e prática caminham juntas
o erro faz parte do processo
a tomada de decisão é treinada desde cedo
a responsabilidade social da Engenharia deixa de ser um conceito abstrato e passa a ter rosto, consequência e contexto
Para muitos estudantes, isso responde à pergunta clássica “onde vou usar isso?” de forma imediata. Quando técnicas como machine learning e análise de dados aparecem conectadas a um problema real, como detectar irregularidades em ARTs, o conteúdo ganha concretude e propósito.
Competências que a aula expositiva nem sempre entrega
Ao longo das semanas de trabalho com o FuturoLab, a formação não avança apenas em termos técnicos. Outras competências aparecem com força:
leitura de contexto e análise crítica
comunicação técnica com públicos diferentes
trabalho colaborativo em times multidisciplinares
visão de impacto social das decisões de projeto
É nesse tipo de ambiente que o estudante começa a entender que Engenharia não é só cálculo, software ou norma. É também negociação, responsabilidade frente ao risco, entendimento de políticas públicas e capacidade de traduzir complexidade em decisões claras.
O que o Crea SP ganha com isso
Do ponto de vista do Sistema profissional, o FuturoLab vai além de um projeto pontual. Ele:
revela lacunas de formação que não aparecem apenas olhando para o PPC de um curso
oferece insumos para discutir atualização curricular e trilhas de capacitação
aproxima o Conselho das novas gerações, mostrando que fiscalização, registro e ART não são burocracias soltas, mas peças de um sistema de proteção à sociedade
Ao receber um protótipo funcional de modelo preditivo, o Crea SP ganha uma ferramenta em potencial. Mas ganha, sobretudo, uma amostra concreta de como a Engenharia pode se conectar a dados, inovação e impacto social de forma integrada.
Engenheiros do futuro: menos abstração, mais propósito
Iniciativas como o FuturoLab ajudam a desenhar um caminho possível para a formação em Engenharia nos próximos anos:
currículos menos centrados apenas em aulas expositivas
mais projetos reais que cruzam teoria, prática e responsabilidade técnica
maior diálogo entre instituições de ensino, Conselhos e mercado
estudantes que entendem seu papel social antes mesmo de colar grau
Em um país que se prepara para investir pesado em infraestrutura, saneamento, mobilidade, energia e tecnologia, não basta ter vagas abertas e editais publicados. É preciso contar com profissionais capazes de formular as perguntas certas, ler cenários complexos e sustentar decisões que vão muito além do cálculo final.
Trazer problemas reais para o centro da sala de aula é um passo importante nessa direção. E, como o FuturoLab mostra, é também uma forma de resgatar o sentido da escolha pela Engenharia para uma nova geração que quer, acima de tudo, ver propósito no que faz.








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