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A mobilidade elétrica já está nas garagens – e a engenharia precisa estar junto

  • A.E.A.O.R
  • 12 de jan.
  • 4 min de leitura


A discussão sobre veículos elétricos no Brasil deixou de ser “assunto de futuro” e passou a fazer parte da rotina de projeto de quem trabalha com edificações, infraestrutura urbana e planejamento energético. Garagens de condomínios, prédios comerciais e estacionamentos públicos começam a receber demandas por pontos de recarga – e, com elas, vêm dúvidas técnicas, responsabilidades e riscos reais.


Mais do que escolher o modelo de carregador, o desafio é garantir que a infraestrutura elétrica que vai alimentar esses equipamentos esteja à altura da frota que cresce ano a ano. É exatamente aqui que a engenharia entra na equação.



Quando a vaga de garagem vira carga relevante no sistema elétrico


A maior parte das edificações brasileiras foi projetada em um contexto em que veículos elétricos simplesmente não eram uma variável de projeto. A infraestrutura elétrica das garagens foi pensada para iluminação, portões, bombas e cargas auxiliares, não para múltiplos pontos de recarga com potência significativa.


Na prática, isso significa que:

  • o quadro de entrada pode não ter margem para novas cargas;

  • os alimentadores podem estar no limite de capacidade;

  • os dispositivos de proteção podem não estar dimensionados para essa nova realidade;

  • qualquer instalação “adicional” feita sem estudo tende a se apoiar em extensões, tomadas comuns e adaptações improvisadas.


Do ponto de vista técnico, essa soma de fatores é o cenário perfeito para sobrecargas, aquecimento de cabos, quedas de tensão, curtos e, em casos extremos, incêndios. E, do ponto de vista da responsabilidade profissional, é um campo em que a ausência de projeto formal deixa síndicos, gestores e profissionais expostos.



A resposta do sistema profissional: nota técnica e referência de projeto


Diante desse cenário, o Sistema Confea/Crea publicou uma Nota Técnica sobre instalação de pontos de recarga de veículos elétricos em edificações, com o objetivo de dar um norte claro a quem projeta, executa, fiscaliza ou contrata essas instalações.


O documento reforça alguns pilares que, para engenheiros, não são novidade – mas que precisam estar expressos, registrados e padronizados:


  • projeto elaborado por engenheiro eletricista habilitado, com ART;

  • observância às normas da ABNT, com destaque para a NBR 5410 (instalações de baixa tensão) e a NBR 17019 (infraestrutura de recarga para veículos elétricos);

  • necessidade de análise da capacidade da instalação existente antes de adicionar novos pontos de recarga;

  • dimensionamento adequado de cabos, disjuntores, dispositivos de proteção diferencial-residual, seccionamento e aterramento.


A nota técnica não “inventa” a engenharia, mas traduz, em linguagem normativa, o que deveria ser o caminho natural: tratar a recarga veicular como uma instalação elétrica especial, com requisitos próprios de segurança, confiabilidade e rastreabilidade.



O papel do engenheiro eletricista no ciclo de recarga


Na prática, o engenheiro eletricista é o eixo técnico que conecta todas as decisões envolvidas na instalação de pontos de recarga:


  • Avalia a capacidade da rede existente: identifica se o padrão de entrada, transformador (quando houver), quadros gerais e alimentadores suportam a nova demanda.

  • Dimensiona circuitos e proteções: especifica seção de cabos, disjuntores, DPS, DR e demais dispositivos em conformidade com o regime de carga esperado.

  • Define a arquitetura da solução: circuitos dedicados, balanceamento das fases, agrupamento de pontos, possibilidade de gestão de carga (load management).

  • Prevê expansão futura: projeta já considerando o aumento natural da frota eletrificada, evitando soluções “apertadas” que se esgotam em poucos anos.

  • Garante rastreabilidade técnica: registra ART, memória de cálculo, diagramas e as-built, criando base para manutenção e fiscalização.


Quando esse papel é substituído por improvisos – extensões, tomadas de uso geral, ramais clandestinos – o que se abre não é só um risco elétrico, mas um vácuo de responsabilidade. Em caso de incidente, a pergunta inevitavelmente será: quem projetou e quem assumiu a responsabilidade técnica por aquela instalação?



Projeto de recarga é elétrico na ponta, mas multidisciplinar na origem


Embora o tema pareça “puramente elétrico” à primeira vista, a implantação de infraestrutura de recarga em edificações envolve outras modalidades de engenharia:


  • Engenharia Civil: passagem de eletrodutos, reforços locais, interferências em estrutura, adequação de lajes e paredes técnicas.

  • Engenharia Mecânica: ventilação e exaustão em ambientes fechados, considerando dissipação de calor e renovação de ar.

  • Engenharia de Segurança do Trabalho: análise de riscos, sinalização, rotas de fuga, atendimento a normas de segurança e prevenção de incêndios.


O engenheiro eletricista acaba atuando como elo de coordenação entre essas frentes: é ele quem traduz a demanda de recarga em requisitos elétricos e, ao mesmo tempo, precisa dialogar com quem cuida da estrutura, do ambiente e da segurança.


Um projeto de recarga bem estruturado é aquele que não só funciona, mas:


  • é seguro, com riscos mitigados;

  • é escalável, permitindo incluir novos pontos no futuro;

  • é documentado, facilitando manutenção, fiscalização e upgrades;

  • é compatível com o planejamento de longo prazo do empreendimento.


Mobilidade elétrica como campo de atuação e de responsabilidade


Com a expansão da frota eletrificada e a multiplicação dos pontos de recarga, a mobilidade elétrica se torna um campo claro de atuação para engenheiros – especialmente eletricistas, mas não só.


Isso significa, ao mesmo tempo:


  • novas oportunidades de trabalho: projetos para condomínios, estacionamentos, shoppings, empresas, frotas corporativas;

  • novas camadas de responsabilidade: instalações que impactam diretamente a segurança de moradores, usuários e colaboradores;

  • necessidade de atualização constante: acompanhar evolução de normas, padrões de conectores, potências, modelos de carregadores e arquitetura de sistemas.


Quando uma garagem decide instalar um wallbox, ela não está apenas “colocando uma tomada melhor”. Está assumindo uma nova função elétrica que mexe com carga instalada, proteção, rotina de uso e, em muitos casos, com o próprio AVCB e o seguro do empreendimento.


A pergunta que fica para engenheiros e gestoras de empreendimentos é simples e direta:

Vamos tratar a recarga de veículos elétricos como mais um improviso no quadro de força ou como infraestrutura crítica da transição energética?


A mobilidade elétrica já é uma realidade. Garantir que ela avance com segurança, eficiência e responsabilidade é, cada vez mais, uma tarefa que passa pela mesa – e pela assinatura – da engenharia.

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