Pesquisas paulistas mostram na prática como a sustentabilidade sai do papel
- A.E.A.O.R
- há 9 horas
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Durante o CONTECC 2025, na 80ª SOEA, dois trabalhos da engenharia paulista chamaram atenção não só pela qualidade técnica, mas pela mensagem que trazem para quem projeta no campo e na cidade: dá para unir desempenho, sustentabilidade e viabilidade econômica quando a pesquisa está conectada à realidade.

De um lado, um estudo em Agronomia que transforma bagaço de cana em tubetes biodegradáveis. Do outro, uma análise de conforto térmico em habitações na Zona Bioclimática 6, mostrando o quanto ainda subaproveitamos o potencial do projeto bioclimático.
Para quem atua em engenharia e agronomia, esses dois casos ajudam a responder uma pergunta bem direta: que tipo de solução estamos colocando em campo hoje?
Bagaço de cana que vira solução, não passivo
O primeiro trabalho parte de um problema conhecido por quem atua em viveiros e reflorestamento: o uso massivo de tubetes plásticos de polipropileno.
Eles têm pelo menos três pontos críticos:
levam centenas de anos para se decompor
geram micro e nanoplásticos no solo e na água
exigem logística de recolhimento e descarte depois do plantio
A pesquisa desenvolvida na UEL, em parceria com UNESP e UFABC, propõe outra rota. Em vez de plástico, entra o bagaço de cana, rico em celulose e amplamente disponível no setor sucroenergético. A lógica é de economia circular: transformar um resíduo em matéria-prima para um insumo agrícola biodegradável.
Alguns resultados importantes dos biotubetes produzidos com bagaço:
raízes conseguem atravessar o material com facilidade, favorecendo o enraizamento
tempo de decomposição em torno de 12 anos, contra até 400 anos do plástico
aumento da biodiversidade microbiológica do solo durante o processo de degradação
Na prática, isso significa:
menos plástico no campo
uma etapa a menos de operação, já que o tubete pode ir junto com a muda
um novo uso de valor agregado para um resíduo que o Brasil tem em grande escala
Para engenheiros e agrônomos, o recado é claro. Projetar cadeia produtiva sustentável não é só especificar “material verde”. É olhar para fluxos de resíduos, capacidades industriais existentes e viabilidade de uso em larga escala. O biotubete mostra que há espaço para soluções que alinham desempenho agronômico, custo e ganho ambiental.
Conforto térmico que começa no projeto, não no ar-condicionado
O segundo estudo vem da engenharia civil e olha para outro ponto sensível: o desempenho térmico de habitações em cidades da Zona Bioclimática 6, como Votuporanga e Fernandópolis.
Mesmo com normas como a NBR 15575 em vigor, muitos projetos de habitação de interesse social ainda são desenhados sem explorar todo o potencial bioclimático previsto na NBR 15220-3. O resultado é conhecido: casas quentes, baixa qualidade de conforto e dependência de climatização artificial que boa parte das famílias não consegue bancar.
A pesquisa utilizou a NBR 15220-3 em conjunto com o software Climate Consultant, que organiza dados do INMET em diagramas e gráficos que facilitam a leitura do clima local. A partir dessa base, foram avaliadas estratégias de projeto para a ZB6, onde verões intensos e invernos amenos pedem soluções muito específicas.
Entre os pontos que mais se destacaram:
sombreamento eficiente de aberturas com beirais, brises e elementos de proteção
uso de paredes com maior inércia térmica
coberturas de maior refletância
ventilação cruzada bem planejada
orientação solar cuidadosa, reduzindo fachadas mais expostas ao oeste
uso estratégico de vegetação para melhorar o microclima
As simulações mostraram reduções de até 4 °C na temperatura interna com ajustes relativamente simples. Em habitação de interesse social, essa diferença muda o conforto, a saúde e a conta de energia.
Aqui, a mensagem para quem projeta é objetiva: não falta norma nem ferramenta, falta incorporar o raciocínio bioclimático como premissa de projeto, e não como complemento opcional.
O que esses estudos dizem sobre o nosso papel
Os dois trabalhos têm focos diferentes, mas esbarram em um ponto em comum: decisões técnicas de hoje têm impacto ambiental e social de longo prazo.
No campo, escolher entre plástico convencional e um biotubete de bagaço de cana é decidir que tipo de resíduo e de solo queremos daqui a 10, 20, 30 anos.
Nas cidades, optar ou não por um projeto realmente alinhado à NBR 15220-3 é decidir se uma habitação vai depender para sempre de equipamento elétrico para ser minimamente confortável.
Para engenheiros e agrônomos paulistas, esse tipo de pesquisa é mais do que vitrine acadêmica. É insumo de projeto, pauta de discussão em equipes e base para novas soluções locais.
A cada novo material testado, a cada estudo bioclimático aprofundado, a engenharia sustentável deixa de ser discurso e se aproxima do canteiro, do viveiro, do lote urbano e da área rural. E é exatamente nesse intervalo entre o resultado científico e a decisão de projeto que está o espaço de atuação de quem já está no mercado.








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