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Pesquisas paulistas mostram na prática como a sustentabilidade sai do papel

  • A.E.A.O.R
  • há 9 horas
  • 3 min de leitura

Durante o CONTECC 2025, na 80ª SOEA, dois trabalhos da engenharia paulista chamaram atenção não só pela qualidade técnica, mas pela mensagem que trazem para quem projeta no campo e na cidade: dá para unir desempenho, sustentabilidade e viabilidade econômica quando a pesquisa está conectada à realidade.



De um lado, um estudo em Agronomia que transforma bagaço de cana em tubetes biodegradáveis. Do outro, uma análise de conforto térmico em habitações na Zona Bioclimática 6, mostrando o quanto ainda subaproveitamos o potencial do projeto bioclimático.


Para quem atua em engenharia e agronomia, esses dois casos ajudam a responder uma pergunta bem direta: que tipo de solução estamos colocando em campo hoje?



Bagaço de cana que vira solução, não passivo


O primeiro trabalho parte de um problema conhecido por quem atua em viveiros e reflorestamento: o uso massivo de tubetes plásticos de polipropileno.


Eles têm pelo menos três pontos críticos:


  • levam centenas de anos para se decompor

  • geram micro e nanoplásticos no solo e na água

  • exigem logística de recolhimento e descarte depois do plantio


A pesquisa desenvolvida na UEL, em parceria com UNESP e UFABC, propõe outra rota. Em vez de plástico, entra o bagaço de cana, rico em celulose e amplamente disponível no setor sucroenergético. A lógica é de economia circular: transformar um resíduo em matéria-prima para um insumo agrícola biodegradável.


Alguns resultados importantes dos biotubetes produzidos com bagaço:


  • raízes conseguem atravessar o material com facilidade, favorecendo o enraizamento

  • tempo de decomposição em torno de 12 anos, contra até 400 anos do plástico

  • aumento da biodiversidade microbiológica do solo durante o processo de degradação


Na prática, isso significa:


  • menos plástico no campo

  • uma etapa a menos de operação, já que o tubete pode ir junto com a muda

  • um novo uso de valor agregado para um resíduo que o Brasil tem em grande escala


Para engenheiros e agrônomos, o recado é claro. Projetar cadeia produtiva sustentável não é só especificar “material verde”. É olhar para fluxos de resíduos, capacidades industriais existentes e viabilidade de uso em larga escala. O biotubete mostra que há espaço para soluções que alinham desempenho agronômico, custo e ganho ambiental.



Conforto térmico que começa no projeto, não no ar-condicionado


O segundo estudo vem da engenharia civil e olha para outro ponto sensível: o desempenho térmico de habitações em cidades da Zona Bioclimática 6, como Votuporanga e Fernandópolis.


Mesmo com normas como a NBR 15575 em vigor, muitos projetos de habitação de interesse social ainda são desenhados sem explorar todo o potencial bioclimático previsto na NBR 15220-3. O resultado é conhecido: casas quentes, baixa qualidade de conforto e dependência de climatização artificial que boa parte das famílias não consegue bancar.


A pesquisa utilizou a NBR 15220-3 em conjunto com o software Climate Consultant, que organiza dados do INMET em diagramas e gráficos que facilitam a leitura do clima local. A partir dessa base, foram avaliadas estratégias de projeto para a ZB6, onde verões intensos e invernos amenos pedem soluções muito específicas.


Entre os pontos que mais se destacaram:


  • sombreamento eficiente de aberturas com beirais, brises e elementos de proteção

  • uso de paredes com maior inércia térmica

  • coberturas de maior refletância

  • ventilação cruzada bem planejada

  • orientação solar cuidadosa, reduzindo fachadas mais expostas ao oeste

  • uso estratégico de vegetação para melhorar o microclima


As simulações mostraram reduções de até 4 °C na temperatura interna com ajustes relativamente simples. Em habitação de interesse social, essa diferença muda o conforto, a saúde e a conta de energia.


Aqui, a mensagem para quem projeta é objetiva: não falta norma nem ferramenta, falta incorporar o raciocínio bioclimático como premissa de projeto, e não como complemento opcional.



O que esses estudos dizem sobre o nosso papel


Os dois trabalhos têm focos diferentes, mas esbarram em um ponto em comum: decisões técnicas de hoje têm impacto ambiental e social de longo prazo.


  • No campo, escolher entre plástico convencional e um biotubete de bagaço de cana é decidir que tipo de resíduo e de solo queremos daqui a 10, 20, 30 anos.

  • Nas cidades, optar ou não por um projeto realmente alinhado à NBR 15220-3 é decidir se uma habitação vai depender para sempre de equipamento elétrico para ser minimamente confortável.


Para engenheiros e agrônomos paulistas, esse tipo de pesquisa é mais do que vitrine acadêmica. É insumo de projeto, pauta de discussão em equipes e base para novas soluções locais.


A cada novo material testado, a cada estudo bioclimático aprofundado, a engenharia sustentável deixa de ser discurso e se aproxima do canteiro, do viveiro, do lote urbano e da área rural. E é exatamente nesse intervalo entre o resultado científico e a decisão de projeto que está o espaço de atuação de quem já está no mercado.

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