O que as fotos históricas de Itaipu revelam sobre a engenharia daquela época?
- A.E.A.O.R
- 21 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Quando a gente olha para as imagens da construção de Itaipu, não está vendo só um registro de obra antiga. Está vendo um jeito de pensar, planejar e executar engenharia em uma escala que ainda impressiona hoje.
Entre 1975 e 1984, a fronteira entre Brasil e Paraguai virou um enorme canteiro de obras para erguer uma das maiores usinas hidrelétricas do planeta, com 20 unidades geradoras e 14.000 MW de potência instalada. Itaipu chegou a responder por cerca de 15% da energia consumida no Brasil e mais de 80% no Paraguai em determinados períodos . Nesse contexto, a fotografia documental virou quase um “relatório visual” da engenharia daquele tempo.
Este texto não é apenas sobre nostalgia. É um convite para olhar essas fotos com a cabeça de engenheiro: o que elas mostram sobre método, logística, segurança, tomada de decisão e cultura de projeto em grandes obras.
1. Desviar um rio para construir uma usina

Um dos registros mais marcantes da construção de Itaipu é o desvio do Rio Paraná. As fotos mostram o leito sendo contido, a abertura de canais e a preparação do terreno para receber a barragem.
Do ponto de vista técnico, essas imagens contam muita coisa:
a confiança em grandes obras hidráulicas, com intervenções diretas em um dos maiores rios da América do Sul
o nível de planejamento necessário para coordenar tempo de execução, regime de chuvas, comportamento do rio e segurança
a dimensão das estruturas provisórias (enrocamentos, diques, canais) que depois “somem” do olhar quando a usina fica pronta
Para quem trabalha com recursos hídricos, geotecnia ou estruturas, cada foto desse processo é quase uma seção de relatório de projeto, só que em forma de imagem.
2. Canteiro de obras como linha de produção

Outro conjunto de fotos mostra o canteiro em ritmo industrial: caminhões, guindastes, correias transportadoras, concretagem em massa e frentes de serviço simultâneas.
Essas imagens revelam uma engenharia muito focada em:
produção em série: repetição de elementos estruturais, etapas padronizadas, ritmo constante
logística intensa: materiais chegando e saindo o tempo todo, necessidade de sincronizar suprimento, armazenagem e uso
coordenação de equipes em um nível que, na época, dependia muito mais de organização “no braço” do que de softwares de gestão como os que temos hoje
Quando se fala em “linha de produção” na construção civil atual, as fotos de Itaipu ajudam a lembrar que essa lógica já estava sendo aplicada em megaobras há décadas, ainda que com outro conjunto de ferramentas.
3. O “chão de obra” que não aparece nos relatórios

As imagens dos barrageiros, cobertos de lama, água e concreto, trabalhando na fundação da usina, trazem um componente que muitas vezes os documentos técnicos não mostram: a realidade de quem executa.
Ali aparecem:
as condições de trabalho em áreas de fundação, escavação e tratamento de maciço
a proximidade constante com riscos físicos, hidráulicos e geotécnicos
a dimensão do esforço humano necessário para que os números de volume escavado, concreto lançado e estruturas erguidas ganhassem corpo
Para quem fala hoje em cultura de SST, ergonomia, NR-18, NR-35 e gestão de riscos, revisitar essas fotos é lembrar o quanto avançamos em alguns aspectos – e o quanto ainda existe espaço para melhoria, mesmo com tecnologia mais moderna disponível.
4. Turbinas, tolerâncias e precisão milimétrica

Há também fotos históricas da instalação das primeiras turbinas de Itaipu. Componentes com centenas de toneladas são içados e posicionados com margens de erro mínimas, combinando:
cálculo estrutural
análise de esforços em içamento
controle dimensional rígido
integração entre projeto, fabricação e montagem
Essas imagens são praticamente uma aula visual sobre montagem eletromecânica em grande porte. Elas lembram que, por trás de cada unidade geradora, existe um trabalho de interface fino entre engenharia civil, mecânica, elétrica e de automação.
Hoje, com modelagem 3D, BIM e simulações mais avançadas, parte desse processo mudou. Mas a premissa continua a mesma: grandes equipamentos exigem tolerâncias pequenas e coordenação absoluta entre disciplinas.
5. A barragem vista de cima: impacto e integração

As vistas aéreas da barragem, com quase 8 km de extensão ligando Brasil e Paraguai, deixam evidente o impacto territorial da obra. Não é apenas uma estrutura de concreto: é uma peça que reorganiza:
o traçado do rio
a paisagem da região
o modo de ocupação do entorno
a infraestrutura associada (estradas, linhas de transmissão, áreas urbanas)
Essas fotos ajudam a lembrar que grandes projetos de engenharia nunca são apenas “técnicos”. Eles são, ao mesmo tempo:
decisões de energia
decisões de política pública
decisões de desenvolvimento regional
Para engenheiros que atuam com planejamento, meio ambiente, energia e infraestrutura, esse olhar integrado é cada vez mais necessário.
O que essas imagens ainda ensinam para a engenharia de hoje?
Olhar para as fotos históricas de Itaipu não é apenas um exercício de admiração. É também uma oportunidade de reflexão técnica.
Algumas perguntas que elas provocam:
Como seria projetar e executar uma obra dessa escala hoje, com as ferramentas atuais de modelagem, gestão e monitoramento?
O que mudou na forma de organizar canteiros, gerenciar riscos e tratar as pessoas envolvidas na obra?
Quais soluções daquela época ainda são referência – e quais servem como alerta para não repetirmos modelos que já não cabem mais?
Como equilibrar a necessidade de grandes infraestruturas com critérios contemporâneos de sustentabilidade, impacto social e governança?
Para quem atua com engenharia, responder essas perguntas é uma forma de conectar passado e futuro: aprender com o que foi feito, reconhecer o que deu certo, entender o que precisa ser diferente.








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