Como uma engenheira marroquina está levando água ao deserto – e por que isso interessa à engenharia brasileira
- A.E.A.O.R
- 21 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Em Arfoud, no Marrocos, a expressão “falta de água” não é abstração de relatório: é rotina. Desde 2017, o país enfrenta uma seca persistente, que rebaixou lençóis freáticos, reduziu níveis de barragens e colocou mais de 70% do território em condição de escassez hídrica.
Nas regiões rurais e desérticas, a conta é ainda mais dura. Onde há água, muitas vezes ela vem de poços rasos, rica em ferro, sais e outros minerais que comprometem o consumo seguro e a saúde pública. É nesse contexto que entra a engenheira Asma Ben Moussa, PhD em hidrogeofísica, e a escolha de usar a engenharia como ferramenta de impacto social direto.

Da pesquisa à empresa: quando a engenharia vira política de acesso
Diante da crise hídrica, Moussa poderia ter permanecido apenas no campo acadêmico, produzindo diagnósticos sobre a queda dos recursos hídricos marroquinos. Em vez disso, decidiu cruzar a fronteira entre pesquisa e execução.
Em fevereiro de 2024, aos 48 anos, ela fundou a Manara Water Consulting, empresa marroquina especializada em gestão sustentável da água, sediada em Tamesna, próximo a Rabat. A ideia é clara: transformar conhecimento em soluções técnicas viáveis para realidades rurais e desérticas.
A equipe é enxuta, mas altamente qualificada: seis profissionais com mestrado e um doutorado trabalham em projetos que vão de estudos hidrogeológicos a implantação de sistemas em campo. O modelo de negócios combina:
consultoria técnica;
pesquisa aplicada;
e um olhar explícito para impacto social.
O que a Manara faz, na prática
A atuação da empresa combina diferentes frentes tecnológicas e de gestão. Entre elas, algumas chamam a atenção:
Recarga artificial de aquíferos
É o uso planejado de água de chuva, rios ou estações de tratamento para reabastecer aquíferos subterrâneos. Isso é feito por meio de poços, valas ou estruturas de infiltração projetadas para garantir segurança, controle de qualidade e maior resiliência hídrica.
Uso de SIG para mapear fontes hídricas
Sistemas de Informação Geográfica (SIG) reúnem dados de sensoriamento remoto, medições de campo e séries climáticas para identificar onde a água está – ou pode estar. Em regiões de difícil acesso, essa “visão integrada” é a diferença entre perfurar às cegas ou direcionar investimentos de forma mais precisa.
Reúso de água tratada
Águas já utilizadas e tratadas são redirecionadas para usos agrícolas e industriais, reduzindo a pressão sobre fontes de água doce e ampliando a eficiência no uso do recurso.
Unidades compactas de dessalinização e desmineralização
Em muitas comunidades, a água subterrânea é rica em sal, ferro e outros minerais. A empresa trabalha com unidades compactas que tornam essa água adequada para consumo humano, sem depender de grandes plantas centrais ou de adutoras extensas.
Segundo Moussa, mais de 80% dos furos de sondagem realizados em seus projetos apresentaram resultados positivos, com vazões entre 1 e 20 litros por segundo – um ganho significativo para comunidades que dependem de caminhões-pipa ou de pontos de água intermitentes.
Muito além da tecnologia: formação e financiamento
O modelo da Manara não é apenas técnico. Há duas camadas importantes para quem olha esse caso com olhos de engenheiro:
Formação de novas profissionais
A empresa atua na capacitação de jovens engenheiras em zonas rurais, além de desenvolver ferramentas de SIG em parceria com universidades marroquinas. Ou seja, o projeto não resolve apenas o problema de hoje: ele cria capacidade técnica local para o futuro.
Modelo de financiamento híbrido
Para sustentar e escalar as soluções, Moussa aposta em um modelo que combina recursos públicos, privados e internacionais. Em 2024, ela aportou cerca de 400 mil dirhams marroquinos de capital próprio para manter o escritório de projetos. Um banco já sinalizou um empréstimo de 1,2 milhão de dirhams após dois anos de operação contínua, o que mostra como o risco inicial ainda recai sobre o empreendedor técnico.
É um exemplo concreto de como a engenharia, quando assume também o papel de empreender, passa a disputar espaço na agenda de investimentos, e não apenas executar contratos prontos.
Quando acesso à água define o limite de desenvolvimento
Em 2022, cerca de 75% da população marroquina tinha acesso a serviços de água potável geridos com segurança, segundo a ONEE. Isso significa que 25% – algo em torno de 10 milhões de pessoas – ainda não contavam com um serviço considerado adequado.
As disparidades entre urbano e rural são significativas:
enquanto cerca de 90% da população urbana possui acesso adequado à água potável, menos da metade dos residentes rurais utiliza fontes melhoradas, e uma parcela ainda menor dispõe de serviços geridos com segurança.
Em áreas desérticas, o desafio é duplo:
o clima extremo, com temperaturas que chegam a 50 °C;
a dependência de aquíferos rasos com água de qualidade química limitada, muitas vezes com excesso de sais e metais.
Problemas como excesso de flúor, sódio, cloretos, nitratos e metais como ferro, manganês e alumínio têm repercussões diretas na saúde: de alterações ósseas e dentárias a hipertensão, problemas renais, cardiovasculares e até condições graves em bebês, como a “síndrome do bebê azul”.
Não é apenas uma discussão técnica. É saúde pública.
E o Brasil no meio dessa conversa?
À primeira vista, Brasil e Marrocos parecem mundos distintos. Mas, quando o tema é acesso à água potável, os números aproximam as duas realidades.
Apesar de ser um dos países com maior volume de água doce do planeta, o Brasil ainda tem cerca de 32 milhões de pessoas sem acesso regular à água tratada. O contraste urbano–rural é marcante: em 2023, apenas 32% dos domicílios rurais tinham rede de água, contra 93% nas áreas urbanas.
Em algumas capitais e cidades da região Norte, a cobertura de água potável não chega a 55% da população. Ou seja, a discussão não é apenas sobre abundância de recurso, mas sobre distribuição, infraestrutura, gestão e prioridade.
A Lei Geral do Saneamento busca reorganizar a prestação dos serviços, com forte participação do setor privado. Mas, como alertam diferentes especialistas, o desafio será garantir que investimentos cheguem também às áreas menos rentáveis, onde o acesso à água é justamente o principal limitador de desenvolvimento.
O que a história de Asma diz aos engenheiros e agrônomos brasileiros
Do ponto de vista técnico, o caso de Asma Ben Moussa mostra algo que a engenharia já sabe, mas nem sempre coloca em prática:
não basta dominar métodos de análise, modelagem ou diagnóstico;
é preciso transformar esse conhecimento em soluções adaptadas à realidade local, com modelos de negócio e de financiamento que façam sentido para quem será atendido.
Para engenheiros e agrônomos, especialmente em um país com desigualdades tão marcantes no acesso à água, a pergunta que fica é direta: em que ponto da cadeia do saneamento e dos recursos hídricos o seu conhecimento pode gerar mais impacto?
Pode ser:
na investigação hidrogeológica;
no projeto e operação de sistemas de abastecimento;
na modelagem de aquíferos;
no reúso de água em processos industriais;
no desenho de políticas públicas;
ou, como Moussa fez, na criação de negócios de impacto que tratem a água como direito e infraestruturas como prioridade.
A engenheira marroquina não resolveu sozinha a crise hídrica do país. Mas mostrou, na prática, como a engenharia pode mudar a vida de quem vive onde o acesso à água é o primeiro limitador de qualquer outra política pública.
E essa é uma discussão que o Brasil, com toda sua abundância de água doce e suas estatísticas de exclusão, não pode ignorar.








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